Parece louco pensar nisso, mas sabe quando você sente que a vida vai te moldando e te apresentando desafios para um propósito maior? Já estive em algumas situações onde entrei em brigas internas comigo mesma, com o meu biológico. Algumas dessas situações comentarei ao longo do artigo, pois me provaram o quanto as experiências que passei moldaram minha jornada.
Acredito que um dos principais pilares para ser fonoaudiólogo é ter empatia humana. Não é apenas aplicar e replicar técnicas, mas compreender que, por trás de cada técnica, existe um ser humano com vontades, desejos e pensamentos próprios, que podem tanto ajudar quanto atrapalhar o progresso da terapia.
Quando passamos por situações semelhantes às dos nossos futuros pacientes, esse processo de atendimento se torna mais compreensível e menos robótico. Não somos meros aplicadores de exercícios, sejam quais forem. Todo ser humano precisa de algo que o impulsione.
Acredito que, para ser um bom fonoaudiólogo, não basta apenas dominar técnicas e ter conhecimento teórico. É preciso algo que não se replica: a sua história de vida. Se sua trajetória se alinha com sua área de atuação, guiar alguém nesse processo se torna mais natural. Você já percorreu esse caminho, já conhece os desafios, sabe o que desanima, o que motiva, o que entristece e quais batalhas mentais e ambientais aquela pessoa enfrenta ou enfrentará.
Não falo apenas sobre "se colocar no lugar do outro", mas sim sobre se reconhecer no outro, revisitar sua própria jornada e dizer: "Isso tem jeito. Confie em mim."
É sobre dar a mão a quem não tem em quem se apoiar. Muitas pessoas anseiam por serem vistas e ouvidas. Por outro lado, há quem tenha tido a sorte de nascer em um ambiente familiar acolhedor, onde essas dificuldades quase não existem.
A questão aqui é: quando alguém passa pelo desenvolvimento de habilidades tardiamente, o esforço é muito maior, pois foge do curso natural biológico.
O caminho se torna mais árduo.
-Deixe-me falar um pouco sobre mim...
Quando criança e adolescente, tive problemas de fala (gagueira), que se manifestava em determinadas palavras e piorava sob estresse social, em apresentações públicas, ao ir ao mercado ou à escola. Onde havia pessoas desconhecidas, lá estava ela: a gagueira, acompanhada de fobia social e timidez.
Embora houvesse casos de gagueira na minha família, indicando uma predisposição genética, o ambiente em que cresci contribuiu fortemente para que eu desenvolvesse essa condição.
Minha infância não foi fácil. Cresci em um lar com escassez financeira. Café da manhã, muitas vezes, era pipoca com café ou angu doce. Almoço? Arroz e feijão nos dias de semana; finais de semana eram mais completos. Roupa nova? Talvez uma vez por ano.
Além disso, minha casa sempre estava cheia. Éramos seis filhos, incluindo minha irmã, que tinha paralisia cerebral e a quem amo imensamente. A dinâmica era caótica: pouco dinheiro, pais exaustos, estresse constante.
Meu pai, um lutador de Tae-Kwon-Do, acumulava medalhas de ouro. Mas dentro de casa, era emocionalmente desequilibrado. Quem não sabia conversar com a boca, conversava com as mãos e os pés...
Minha mãe, sobrecarregada, vivia com medo. E nós, filhos, assistíamos a cenas terríveis. Eu mesma vivi situações que ninguém deveria passar, como ver minha mãe sendo agredida enquanto eu chorava escondida debaixo da cama.
Tudo isso deixou marcas profundas.
O estresse contínuo afetou minha autoestima, minha capacidade de me expressar e contribuiu para minha gagueira. Durante anos, minha mãe tomou remédios para tentar aliviar o sofrimento. E eu só desejava que o tempo passasse rápido.
Mas os anos passaram e, claro: desenvolvimento e maturação biológica prejudicados! Cartão vermelho.
Foi por volta dos 14 anos que tive um estalo brutal sobre quem eu era e onde queria chegar.
Eu era uma adolescente com problemas de fala, autoestima e fobias. Sabia que precisava mudar, mas não tinha internet, celular, nada. Não tinha acesso a tratamento fonoaudiológico, pois meus pais não entendiam sua importância.
Sem recursos, comecei a buscar soluções por conta própria. Observando meus irmãos mais novos aprendendo a ler e escrever, percebi que poderia me reeducar. Se eu havia aprendido a falar de maneira inadequada, talvez pudesse reaprender de forma mais fluida.
Comecei a anotar palavras difíceis e treiná-las sozinha, no meu quarto. Falava mentalmente, para evitar constrangimentos. Sem querer, criei minha própria técnica. E quando percebi que estava funcionando, fui elevando o nível.
Com 17 para 18 anos, a gagueira já não era um problema tão evidente. Mas minha comunicação ainda era confusa. Eu misturava ideias, começava pelo final, falava de forma embaralhada.
Meu então namorado (hoje marido) percebeu essa dificuldade e me ajudou. Me ensinou sobre organização do pensamento e estruturação de argumentos.
Fui treinando. Aprendi a organizar minhas ideias como se estivesse escrevendo um texto dissertativo. Aos poucos, fui aprimorando minha comunicação. E meu relacionamento melhorou muito.
Hoje, olho para trás e vejo o quanto trabalhar a minha voz e comunicação mudou minha vida. Eu poderia ter aceitado minhas condições e lidado com uma série de restrições, mas escolhi o caminho mais desafiador – e recompensador.
Vale muito a pena trabalhar a mente, a autoconfiança, treinar a voz, a fala, a respiração e fazer exercícios de relaxamento vocal.
E é por isso que decidi me tornar fonoaudióloga: em respeito à minha trajetória e para ajudar outras pessoas a encontrarem sua própria voz.
Minha voz, antes motivo de insegurança, tornou-se minha maior motivação. Quero auxiliar crianças, adolescentes e adultos a superarem suas dificuldades, mostrando que é possível transformar desafios em superação. Mais do que uma profissão, para mim, a Fonoaudiologia é um caminho de renascimento e empoderamento.
Minha voz, antes um desafio, hoje é minha maior ferramenta. E eu quero ajudar outras pessoas a encontrarem a sua própria voz também.
